Hóspede brasileiro é um cara engraçado. Sempre tentando dar um jeito de burlar a lei do navio. Tem gente que pega pesado, trazendo 300 pastilhas de ecstasy pra vender pra geral. Mas a maioria só tem um sonho náutico: entrar no navio com cachaça.
Obviamente, é proibido. Ora bolas, boa parte do lucro da companhia vem da venda de álcool.
E existem tantas outras companhias onde bebidas são incluídas na passagem que você paga em 10 vezes de 30 reais no cartão sem juros e sem entrada. Não precisa vir fazer baixaria na nossa firma.
E mesmo outras concorrentes, como a Costa, que também não permitem que se traga mé abordo, costumam ser menos vigilantes. Mas na Royal, não rola.
De qualquer forma, é super divertido observar as criativas tentativas de contrabando que aparecem todo santo cruzeiro.
A mais comum, é claro, é a garrafa de água mineral cheia de vodka. No MOB, a rave do navio, teve um cara-de-pau que trouxe dois galões de seis litros cheios de "água mineral". Pessoalmente eu acho que tinha que ter deixado o cara entrar com a mercadoria e fazer o cidadão beber os 12 litros de vodka nos 3 dias de cruzeiro. Porque gente sem noção não precisa de fígado, né?
Toda bagagem que entra no navio passa por duas máquinas de raio x. Uma na alfândega, procurando por armas, bombas, etc., e outra já abordo, buscando a mardita. Algumas "mentes da ciência" acreditam que, se você embrulhar a garrafa em papel carbono, o raio-x não vai ver o líquido. Vê, sim.
Tem gente que se inspira no Código DaVinci. Um embrulho de presente. Você abre o papel de embrulho, é uma caixa de secador de cabelo. Você abre a caixa, tem uma bola de papel jornal. Dentro da bola de papel jornal, tem um vidro de perfume. Dentro do vidro de perfume: Smirnoff Ice. Tudo bem que pra alguns é uma arte, mas é muito trabalho pra passar atestado de pobre, não é?
segunda-feira, 22 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
Diário de Bordo. É Carnaval em Salvador.
Uma expressão conhecida entre os hóspedes acostumados com a rotina de navio é o famoso "carnavio", que é, obviamente, um cruzeiro feito durante o carnaval. Fora deste contexto, usamos a expressão para qualquer itinerário em que haja muitos jovens, muita gente festeira, muita bebedeira e pegação dentro de um navio de cruzeiros. Charters - aqueles que falamos anteriormente - são considerados carnavios. E cruzeiros de fim de semana que custam 400 reais e podem ser pagos em 10 vezes no cartão, tipo Casas Bahia, também costumam ser carnavios.
Daí, era de se esperar que o cruzeiro de carnaval fizesse jus ao nome. Bem, fez e não fez.
Sem dúvida, muitos jovens, sem dúvida, muita festa. Boate aberta até as sete, oito da manhã (ontem, por exemplo, fechei as três.) enfim. Tudo como manda o figurino, mas com uma relativa paz e tranquilidade que davam gosto. Foi tudo muito agradável. Até chegarmos em Salvador para o nosso overnight.
Overnight é quando um navio "dorme" no porto, possibilitando aos hóspedes a visitação das cidades durante a noite. Nada melhor para uma terça de carnaval. A tripulação do navio estava em polvorosa com a idéia do overnight. Muitos compraram camarotes a 400 reais a cabeça para poder ver o trio elétrico passar. Eu fiquei no navio. Afinal, a boate tinha que ficar aberta.
Não gosto de me depreciar muito. Mas pense comigo. Entre pular atrás do bloco do Chiclete com Banana e da Ivete Sangalo e ficar na Viking Crown ao som do DJ Rodrigo Amém, o que você teria feito? Pois não é que um grupinho de umas 50 pessoas preferiu ficar na boate?
Porque essas pessoas resolveram fazer cruzeiro de carnaval em Salvador está além da minha compreensão.
Mas outras coisas que eu não compreendia foram-me elucidadas. Uma hóspede, expert em folia soteropolitana, explicava para as amigas a melhor estratégia para pular atrás do trio.
Segundo ela, o segredo é usar bermuda de cores escuras e carregar sempre uma garrafinha de água mineral. Porque, no meio do trio, a garota vai sentir vontade de fazer xixi. Aí o esquema é fazer na calça e se lavar com a água mineral. Juro por Deus que ela mandou essa como se fosse o segredo para cultivar azeitona sem caroço.
Posso ser um cara meio reacionário, mas dificilmente me convenceriam a pagar 400 reais por uma camiseta feia e biodegradável que me dá direito a passar calor espremido no meio de uma multidão suada que urina nas calças, lava com agua mineral quente e depois tenta me beijar na boca.
Haja rebolation.
Daí, era de se esperar que o cruzeiro de carnaval fizesse jus ao nome. Bem, fez e não fez.
Sem dúvida, muitos jovens, sem dúvida, muita festa. Boate aberta até as sete, oito da manhã (ontem, por exemplo, fechei as três.) enfim. Tudo como manda o figurino, mas com uma relativa paz e tranquilidade que davam gosto. Foi tudo muito agradável. Até chegarmos em Salvador para o nosso overnight.
Overnight é quando um navio "dorme" no porto, possibilitando aos hóspedes a visitação das cidades durante a noite. Nada melhor para uma terça de carnaval. A tripulação do navio estava em polvorosa com a idéia do overnight. Muitos compraram camarotes a 400 reais a cabeça para poder ver o trio elétrico passar. Eu fiquei no navio. Afinal, a boate tinha que ficar aberta.
Não gosto de me depreciar muito. Mas pense comigo. Entre pular atrás do bloco do Chiclete com Banana e da Ivete Sangalo e ficar na Viking Crown ao som do DJ Rodrigo Amém, o que você teria feito? Pois não é que um grupinho de umas 50 pessoas preferiu ficar na boate?
Porque essas pessoas resolveram fazer cruzeiro de carnaval em Salvador está além da minha compreensão.
Mas outras coisas que eu não compreendia foram-me elucidadas. Uma hóspede, expert em folia soteropolitana, explicava para as amigas a melhor estratégia para pular atrás do trio.
Segundo ela, o segredo é usar bermuda de cores escuras e carregar sempre uma garrafinha de água mineral. Porque, no meio do trio, a garota vai sentir vontade de fazer xixi. Aí o esquema é fazer na calça e se lavar com a água mineral. Juro por Deus que ela mandou essa como se fosse o segredo para cultivar azeitona sem caroço.
Posso ser um cara meio reacionário, mas dificilmente me convenceriam a pagar 400 reais por uma camiseta feia e biodegradável que me dá direito a passar calor espremido no meio de uma multidão suada que urina nas calças, lava com agua mineral quente e depois tenta me beijar na boca.
Haja rebolation.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Diario de bordo. Charters - Parte IV
E o último cruzeiro fretado desta temporada do Vision of the Seas foi o Freedom, o cruzeiro gay. Ou GLS. Ou GLBT. Ou sei lá qual o nome que se dá pra esse pessoal que mexe com dação de bunda. Mas o fato é que o cruzeiro foi um sucesso. A produção trouxe quilos de equipamentos, trocentos DJs, muito luxo, glamour e purpurina do jeito que a clientela gosta.
Foi um cruzeiro até mais ecológico. Pudemos desligar o ar condicionado e poupar energia, porque a frescura dentro do navio era tanta que já resolvia a situação.
Atingimos a lotação máxima do Vision. Achei até que não teria jogo do São Paulo na rodada.
Piadas à parte, foi um cruzeiro que deu bastante trabalho.
Tivemos palestras de sensibilização sobre como tratar os passageros. Desde coisas óbvias como não ficar olhando com cara horrorizada os dois lutadores de jiu-jitsu se beijando na piscina até coisas mais risíveis como usar o genero feminino tanto para homens quanto para mulheres.
Tivemos várias prisões por tráfico de drogas. Mas, no geral, foi um cruzeiro pacífico.
Mais uma vez, não trabalhei. E mais uma vez, fizeram uma festa para o crew. Só que, desta vez, a festa foi no clubinho de recreação infantil, que estava obviamente fechado para o evento.
Desta vez, bebi moderadamente. Pena que o mesmo não pode ser dito do meu chefe, que tomou todas e derrubou cerveja na mesa de som do clubinho, acabando com a festa. Ah, claro. E teve um baile de máscaras onde a criatividade dos hóspedes A-RRA-SOU!
Foi um cruzeiro até mais ecológico. Pudemos desligar o ar condicionado e poupar energia, porque a frescura dentro do navio era tanta que já resolvia a situação.
Atingimos a lotação máxima do Vision. Achei até que não teria jogo do São Paulo na rodada.
Piadas à parte, foi um cruzeiro que deu bastante trabalho.
Tivemos palestras de sensibilização sobre como tratar os passageros. Desde coisas óbvias como não ficar olhando com cara horrorizada os dois lutadores de jiu-jitsu se beijando na piscina até coisas mais risíveis como usar o genero feminino tanto para homens quanto para mulheres.
Tivemos várias prisões por tráfico de drogas. Mas, no geral, foi um cruzeiro pacífico.
Mais uma vez, não trabalhei. E mais uma vez, fizeram uma festa para o crew. Só que, desta vez, a festa foi no clubinho de recreação infantil, que estava obviamente fechado para o evento.
Desta vez, bebi moderadamente. Pena que o mesmo não pode ser dito do meu chefe, que tomou todas e derrubou cerveja na mesa de som do clubinho, acabando com a festa. Ah, claro. E teve um baile de máscaras onde a criatividade dos hóspedes A-RRA-SOU!
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Diario de bordo. Charters - Parte III
Nosso terceiro charter foi a famosa rave MOB - Music on Board. Provavelmente os 3 dias mais surreais da minha vida.
Vamos comecar pelo embarque. Quem ja fez cruzeiro com a Royal sabe que não é permitido o embarque com bebida alcoólica na bagagem. A razão é simples: a cia vende bebida abordo.
Se o cruzeiro for pela Costa, MSC e similares, você provavelmente vai conseguir embarcar com um alambique, uma vez que estas companhias já tem tradição em cruzeiros piriguetes.
Além do mais, se você precisa economizar colocando bebida dentro da mala, é melhor repensar suas férias. Cruzeiro não é pra você. Que tal uma pousadinha em Rio das Pedras?
Pois os nossos diletos passageiros do MOB tentaram. E tentaram meeesmo. Você pode não acreditar, mas apreendemos 2 mil litros de bebida alcoólica. A pergunta que não quer calar: o que é feito desse material todo? Bem, o que esta devidamente lacrado dentro das garrafas originais é etiquetado e devolvido no fim do cruzeiro. O que foi "sagazmente" disfarçado e retido permanentemente. E a gente bebeu tudo. Mas já chego lá.
A criatividade dos mesquinhos parece não ter fim. Um fulano trouxe para o navio dois galões de água mineral de seis litros, cheios de vodka. Muito obrigado, senhor.
Outro, colocou whisky numa bolsa térmica, daquelas que você usa quando machuca o joelho. Muita gentileza, meu amigo.
E tem até quem coloque pinga em frasco de shampoo. Se me perguntarem, uma pessoa que faz isso devia ser afastada do convívio social com gente civilizada. Muito obrigado, de qualquer forma.
A melhor parte era ver os nossos diletos hóspedes dando chilique por causa da bebida apreendida. Tinha fulano que dava carteirada:
- Porque meu pai é Procurador da República, vocês não podem fazer isso! - Pena que o Procurador não procurou fazer o teste do pezinho no filho quando ele era novo, pensava eu.
Outros aproveitavam a aglomeração para pagar de playboy:
- Eu estou na suite mais cara desse navio e não admito isso! - Eu também não gosto de admitir, meu amigo, mas acho que o senhor devia investir sua fortuna em educação. Na sua, claro.
Tirando a mesquinhes e superficialidade, nossos hóspedes durante o MOB era lindos. Eu nunca vi tanta mulher linda junta em toda a minha vida. Os homens todos criados a redbull e fortificante para cavalo. Se o navio começasse a afundar, provavelmente ficariamos à tona, tamanha era a quantidade de silicone abordo.
Som e luz bombando, um milhão de DJs tocando a mesma musica durante 3 dias, os lounges com as Djeias gostosas fazendo pose, enfim, toda aquela indústria que permite fraudes como o Jesus Luz. Uma honrosa exceção foi a apresentação do Ask 2 Quit, com a participação do Saxofonista do Kid Abelha, que teve a manha de, durante seu solo, tropeçar e cair dentro da piscina, com sax e tudo. Show!
Quanto a bebida apreendida, a tripulação fez uma festa regadíssima no fosso da orquestra, no teatro. A única noite em que trabalhei. Como não dava pra saber exatamente que bebida era o que, os drinks ficaram meio que aleatórios. Minha última lembrança daquela noite foi eu, um filipino da casa das máquinas, uma chinesa da limpeza e um segurança inglês pulando descontroladamente no deck da piscina.
Saldo total, 4 presos por narcotráfico, 3 overdoses e a piscina tá fedendo a vômito até agora.
Vamos comecar pelo embarque. Quem ja fez cruzeiro com a Royal sabe que não é permitido o embarque com bebida alcoólica na bagagem. A razão é simples: a cia vende bebida abordo.
Se o cruzeiro for pela Costa, MSC e similares, você provavelmente vai conseguir embarcar com um alambique, uma vez que estas companhias já tem tradição em cruzeiros piriguetes.
Além do mais, se você precisa economizar colocando bebida dentro da mala, é melhor repensar suas férias. Cruzeiro não é pra você. Que tal uma pousadinha em Rio das Pedras?
Pois os nossos diletos passageiros do MOB tentaram. E tentaram meeesmo. Você pode não acreditar, mas apreendemos 2 mil litros de bebida alcoólica. A pergunta que não quer calar: o que é feito desse material todo? Bem, o que esta devidamente lacrado dentro das garrafas originais é etiquetado e devolvido no fim do cruzeiro. O que foi "sagazmente" disfarçado e retido permanentemente. E a gente bebeu tudo. Mas já chego lá.
A criatividade dos mesquinhos parece não ter fim. Um fulano trouxe para o navio dois galões de água mineral de seis litros, cheios de vodka. Muito obrigado, senhor.
Outro, colocou whisky numa bolsa térmica, daquelas que você usa quando machuca o joelho. Muita gentileza, meu amigo.
E tem até quem coloque pinga em frasco de shampoo. Se me perguntarem, uma pessoa que faz isso devia ser afastada do convívio social com gente civilizada. Muito obrigado, de qualquer forma.
A melhor parte era ver os nossos diletos hóspedes dando chilique por causa da bebida apreendida. Tinha fulano que dava carteirada:
- Porque meu pai é Procurador da República, vocês não podem fazer isso! - Pena que o Procurador não procurou fazer o teste do pezinho no filho quando ele era novo, pensava eu.
Outros aproveitavam a aglomeração para pagar de playboy:
- Eu estou na suite mais cara desse navio e não admito isso! - Eu também não gosto de admitir, meu amigo, mas acho que o senhor devia investir sua fortuna em educação. Na sua, claro.
Tirando a mesquinhes e superficialidade, nossos hóspedes durante o MOB era lindos. Eu nunca vi tanta mulher linda junta em toda a minha vida. Os homens todos criados a redbull e fortificante para cavalo. Se o navio começasse a afundar, provavelmente ficariamos à tona, tamanha era a quantidade de silicone abordo.
Som e luz bombando, um milhão de DJs tocando a mesma musica durante 3 dias, os lounges com as Djeias gostosas fazendo pose, enfim, toda aquela indústria que permite fraudes como o Jesus Luz. Uma honrosa exceção foi a apresentação do Ask 2 Quit, com a participação do Saxofonista do Kid Abelha, que teve a manha de, durante seu solo, tropeçar e cair dentro da piscina, com sax e tudo. Show!
Quanto a bebida apreendida, a tripulação fez uma festa regadíssima no fosso da orquestra, no teatro. A única noite em que trabalhei. Como não dava pra saber exatamente que bebida era o que, os drinks ficaram meio que aleatórios. Minha última lembrança daquela noite foi eu, um filipino da casa das máquinas, uma chinesa da limpeza e um segurança inglês pulando descontroladamente no deck da piscina.
Saldo total, 4 presos por narcotráfico, 3 overdoses e a piscina tá fedendo a vômito até agora.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Diario de bordo. Charters - Parte II
Nosso segundo charter foi o Energia na Ve'ia, uma evento promovido pela Energia Fm, uma radio de Santos. Trata-se de um evento bem estranho. E' uma especie de rave de flashbacks. Os organizadores trazem uma quantidade enorme de equipamento a bordo, montam palcos gigantes na piscina e trazem seus proprios Djs, varios deles, cada um um nome de trabalho mais interessante. DJ Wagnão, por exemplo. Não sei quanto a vocês, mas pra mim, Wagnão nao é nome de DJ. É nome de quem dirige Opala 76. Mas olha só o DJ Rodrigo Amém falando, né?
O clima da festa lembra uma festa ploc, ou talvez uma daquelas festas chamadas Bailinho, no Rio de Janeiro. (para quem não é do Rio, eu explico. Bailinho é uma festa hype carioca, onde vc vai ver atores fingindo que são Djs para um público que paga uma fortuna só pra estar na mesma festa em que celebridades entram de graça). O povo não é muito jovem. Já estão naquela idade em que é legal ter saudade do MC Hammer. Então é uma balada onde o DJ manda um Kiss, do Prince, e a galera vai à loucura. Cada um com seu cada qual.
A vantagem do Energia na Véia é que, como eles trazem os Wagnões da vida, eu não preciso trabalhar. Depois de tocar todos os dias desde agosto, sem folga, esse break foi uma benção.
Eu pude ir ao back deck pela primeira vez no meu contrato. Em tempo: back deck é o bar destinado exclusivamente para a tripulação do navio, já que muitos funcionários não podem frequentar as áreas de hóspedes. A maioria, na verdade.
E foi lá que eu me dei conta de uma coisa trágica. O meu não-pertencimento à tripulação.
Meus horários de trabalho não me permitem interagir com meus colegas de trabalho.
Todos no back deck já estavam devidamente entrosados, nos mais variados níveis. Todos já tinham vínculos que os ajudavam a atravessar as dificuldades de nossa bizarra jornada de trabalho. Eles eram uma tribo da qual eu não fazia parte.
Claro, todo mundo abordo sabe quem é o DJ, assim como quem é o Comandante do navio. Mas ninguém me conhece. Poucos amigos, ninguém com quem conversar, nenhuma afinidade com ninguém. Descobri que sou o único tripulante navegando sozinho ao som do DJ Wagnão e seu Opala 76.
O clima da festa lembra uma festa ploc, ou talvez uma daquelas festas chamadas Bailinho, no Rio de Janeiro. (para quem não é do Rio, eu explico. Bailinho é uma festa hype carioca, onde vc vai ver atores fingindo que são Djs para um público que paga uma fortuna só pra estar na mesma festa em que celebridades entram de graça). O povo não é muito jovem. Já estão naquela idade em que é legal ter saudade do MC Hammer. Então é uma balada onde o DJ manda um Kiss, do Prince, e a galera vai à loucura. Cada um com seu cada qual.
A vantagem do Energia na Véia é que, como eles trazem os Wagnões da vida, eu não preciso trabalhar. Depois de tocar todos os dias desde agosto, sem folga, esse break foi uma benção.
Eu pude ir ao back deck pela primeira vez no meu contrato. Em tempo: back deck é o bar destinado exclusivamente para a tripulação do navio, já que muitos funcionários não podem frequentar as áreas de hóspedes. A maioria, na verdade.
E foi lá que eu me dei conta de uma coisa trágica. O meu não-pertencimento à tripulação.
Meus horários de trabalho não me permitem interagir com meus colegas de trabalho.
Todos no back deck já estavam devidamente entrosados, nos mais variados níveis. Todos já tinham vínculos que os ajudavam a atravessar as dificuldades de nossa bizarra jornada de trabalho. Eles eram uma tribo da qual eu não fazia parte.
Claro, todo mundo abordo sabe quem é o DJ, assim como quem é o Comandante do navio. Mas ninguém me conhece. Poucos amigos, ninguém com quem conversar, nenhuma afinidade com ninguém. Descobri que sou o único tripulante navegando sozinho ao som do DJ Wagnão e seu Opala 76.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Diario de bordo. Charters - Parte I
Minha ausencia nao se justifica, mas se explica. Acabou a temporada de Charters no navio.
Charter e' todo cruzeiro que tem um tema, um publico especifico ou quando uma empresa ou organizacao literalmente "aluga" o navio e promove as vendas e os eventos a bordo.
Tivemos quatro desses eventos num intervalo de um mes. O primeiro foi o cruzeiro catolico.
Ai teve missa todo dia, aquelas aerobicas de Jesus. Teve uma rave catolica chamada Tecno-Cristo. Juro. E pior, tivemos ocorrencias medicas de pessoas que desmaiavam porque estavam tomadas pelo Espirito Santo. Ou seja, Jesus voltou e esta entre nos, so' que na forma de bala.
Nada como uma blasfemia para me fazer sorrir numa sexta-feira de carnaval.
Charter e' todo cruzeiro que tem um tema, um publico especifico ou quando uma empresa ou organizacao literalmente "aluga" o navio e promove as vendas e os eventos a bordo.
Tivemos quatro desses eventos num intervalo de um mes. O primeiro foi o cruzeiro catolico.
Ai teve missa todo dia, aquelas aerobicas de Jesus. Teve uma rave catolica chamada Tecno-Cristo. Juro. E pior, tivemos ocorrencias medicas de pessoas que desmaiavam porque estavam tomadas pelo Espirito Santo. Ou seja, Jesus voltou e esta entre nos, so' que na forma de bala.
Nada como uma blasfemia para me fazer sorrir numa sexta-feira de carnaval.
sábado, 16 de janeiro de 2010
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